Documentário sobre eleições de 1986 levanta reflexões sobre a política atual em Portugal
08 FEV

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Cotidiano
Helena Vieira Martins Por Helena Vieira Martins - Há 2 meses
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Nos primeiros dias de 2026, Portugal viveu um momento curioso ao realizar duas eleições presidenciais simultaneamente. Uma delas, já finalizada, teve a vitória do socialista António José Seguro. A outra, ocorrida há 40 anos, foi marcada pela eleição de Mário Soares, também socialista, que venceu no segundo turno em 1986. Essas eleições foram tema do documentário "A Duas Voltas", uma série em cinco episódios que obteve grande audiência no site da RTP, a emissora pública do país.

Após o primeiro turno, uma reportagem do jornal Público destacou que o documentário era "feito para pensar o presente", fazendo um paralelo entre as duas eleições. A série sugere que há muitas semelhanças entre os pleitos, como a divisão do país e o fato de que ambos os vencedores começaram suas campanhas com baixa popularidade, recebendo menos de 10% das intenções de voto. No entanto, a interpretação dos resultados e as consequências políticas são bastante diferentes, segundo os realizadores Ivan Nunes e Paulo Pena.

As eleições de 1986, segundo Nunes, foram fundamentais para a consolidação da democracia em Portugal. Ele ressalta que, apesar da derrota de André Ventura, candidato antissistema, "não há mais normal para onde voltar". Nunes explica que a eleição de 1986 deu início a um período de estabilidade política que durou mais de três décadas, caracterizado pela alternância de poder entre o Partido Socialista (PS) e o Partido Social Democrata (PSD).

Ivan Nunes, além de documentarista, tem uma trajetória política, tendo trabalhado na campanha de Mário Soares em 2006 e atuado como assessor do ministro da Cultura entre 2022 e 2024. Ele destaca que, após a Revolução dos Cravos, o país passou por uma fase de instabilidade, com dez governos em uma década. A partir de 1986, no entanto, os governos passaram a durar em média quatro anos, estabelecendo um padrão de estabilidade.

O documentário também traça um paralelo entre a configuração política de Portugal e a polarização do Brasil entre PT e PSDB. Nunes observa que a estabilidade política portuguesa coincidiu com o crescimento econômico do país, que se tornou membro da Comunidade Econômica Europeia em 1986, o que trouxe prosperidade. No entanto, o documentário também expõe imagens de pobreza de décadas passadas, surpreendendo muitos espectadores que não associavam tal realidade a Portugal.

A ascensão econômica transformou a sociedade portuguesa e atraiu imigrantes, mas a atual instabilidade política está ligada ao crescimento da ultradireita e ao seu discurso conservador e xenófobo. Nunes aponta que a centro-direita perdeu sua capacidade de organização, especialmente após o Chega, partido de Ventura, se tornar a segunda força no parlamento. Em contrapartida, a centro-esquerda enfrenta dificuldades desde 2024, levando à fragmentação política.

Nesse cenário, a vitória de António José Seguro, embora considerada por Nunes como de um político sem grande destaque, é vista como significativa. Portugal possui um regime semipresidencialista, e mesmo que o primeiro-ministro conduza o governo, o presidente possui importantes poderes de veto, incluindo a capacidade de dissolver a Assembleia e vetar leis, o que pode servir como uma barreira contra o avanço da ultradireita.

Diante do que foi observado, a política portuguesa atual se assemelha à instabilidade política que caracteriza outros países europeus, como a França, onde a fragmentação partidária leva a frequentes eleições. A dificuldade em estabelecer um governo estável, com uma base parlamentar sólida, eleva as chances de novas eleições em curto espaço de tempo.

Desta forma, a análise do documentário "A Duas Voltas" traz à tona questões relevantes sobre a política contemporânea em Portugal. A comparação entre as duas eleições presidenciais destaca como o contexto político pode evoluir e se transformar ao longo das décadas.

É importante refletir sobre a trajetória democrática do país e como as experiências passadas podem servir de lição para o presente. A consolidação de um sistema político estável é fundamental para o desenvolvimento de qualquer nação.

A polarização atual e a ascensão de partidos extremistas são sinais de alerta que devem ser considerados por todos os cidadãos. O fortalecimento da democracia depende do engajamento da população e da responsabilidade dos partidos em atender as demandas sociais.

Assim, ao observar as eleições de 1986 e suas consequências, é possível entender a importância de um debate político saudável e da construção de consensos. Isso é necessário para garantir que a democracia não apenas sobreviva, mas prospere, evitando retrocessos que possam colocar em risco conquistas sociais.

Finalmente, o documentário é uma ferramenta valiosa para estimular essa reflexão, mostrando que o passado deve ser analisado não apenas como uma memória, mas como um aprendizado que pode moldar o futuro político.

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Helena Vieira Martins

Sobre Helena Vieira Martins

Graduanda em Sociologia, analisa os fenômenos do cotidiano das grandes metrópoles brasileiras. Paixão por fotografia de rua e cinema clássico europeu. Adora fazer trekking e trilhas longas em parques nacionais.