Relatório conclui que ex-presidente Juscelino Kubitschek foi assassinado durante a ditadura militar
29 MAI

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Política
Marcos Antonio Oliveira Por Marcos Antonio Oliveira - Há 10 horas
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A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) aprovou na última sexta-feira (29) um relatório que afirma que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi assassinado pela ditadura militar em 1976. O documento, que contesta a versão oficial de que JK faleceu em um acidente de carro na Via Dutra, entre São Paulo e Rio de Janeiro, foi aprovado com seis votos favoráveis e uma abstenção.

Durante uma coletiva na sede da Procuradoria Regional da República da 3ª Região, a relatora do caso, professora Maria Cecília Adão, apresentou elementos que sustentam a hipótese de um atentado político. Um dos principais pontos levantados é que um encontro de emissários do então presidente Ernesto Geisel em um hotel teria motivado JK a viajar de carro, ao invés de ir de avião.

De acordo com a relatora, o motorista de Juscelino pode ter sido sedado e o carro manipulado mecanicamente no hotel antes da viagem. Um caminhoneiro que passou pelo local do acidente afirmou que viu o motorista de JK debruçado no volante, parecendo inconsciente, antes da colisão. “O acidente não ocorreu como foi relatado. Considerando o contexto político da época, as falhas nos laudos e a ocultação de provas, podemos afirmar que o assassinato foi encoberto”, declarou Maria Cecília.

A relatora também destacou que o motorista de JK já havia notado algo estranho no veículo antes de iniciar a viagem. O relatório é resultado de investigações e perícias realizadas ao longo dos anos e revela que os peritos do Instituto Médico-Legal do Rio de Janeiro que atuaram no caso estiveram envolvidos em fraudes em outras investigações de mortes durante a ditadura. A comissão identificou 37 fraudes na apuração da morte de JK, incluindo a chegada de militares no local do acidente cerca de 20 minutos após a colisão. Esses militares teriam assumido o controle da cena do acidente, o que possibilitou a adulteração de provas.

Além disso, houve manipulação de testemunhas, já que relatos que contradiziam a versão oficial foram ignorados. A relatora também apresentou fotos que mostram que a lanterna traseira do carro de JK não apresentava danos após sua morte, enquanto no pátio do local, o veículo estava avariado. De acordo com a professora, houve uma destruição deliberada de provas, com o veículo sendo desmantelado e a família de JK recebendo ameaças.

Maria Cecília ressaltou que o laudo do Ministério Público apontou falhas graves nos laudos oficiais, tornando-os "imprestáveis". Marcas de frenagem no local não correspondiam aos padrões do ônibus envolvido na colisão. A forma como o carro colidiu também era incompatível com os relatos apresentados. O relatório também acusa que a pista não foi isolada adequadamente e que os veículos foram removidos sem que suas posições originais fossem preservadas. Além disso, houve desrespeito à cadeia de custódia dos corpos de JK e do motorista durante o transporte para o IML. Não há registros que indiquem quem foi o responsável por esse transporte.

Outro ponto levantado pela comissão foi a alteração do horário da morte de JK. Segundo a relatora, laudos indicam que o ex-presidente teria falecido às 20h50, cerca de três horas após o acidente, levantando questionamentos sobre a divergência nos registros oficiais. A comissão também criticou a ausência de um exame toxicológico que poderia verificar a possibilidade de envenenamento. Um detalhe importante é que três dias antes do acidente, uma notícia mencionou a possibilidade de JK morrer em um acidente na mesma rodovia. A relatora ainda citou que o próprio ex-presidente teria comentado com jornalistas sobre tentativas de sua morte.

Após a aprovação do relatório, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos informou que buscará a retificação da certidão de óbito de Juscelino Kubitschek, conforme prevê a Resolução 601/2024 do Conselho Nacional de Justiça.

Desta forma, a conclusão do relatório sobre a morte de JK lança luz sobre um capítulo obscuro da história brasileira. O reconhecimento de que o ex-presidente pode ter sido vítima de um atentado político durante a ditadura militar é um passo importante para a verdade e a justiça.

O trabalho da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos deve ser valorizado, pois busca esclarecer fatos que foram ocultados por décadas. A manipulação de provas e a atuação de militares na cena do acidente demonstram a necessidade de uma investigação mais profunda sobre os crimes políticos na era da repressão.

Além disso, a retificação da certidão de óbito de JK é um direito que deve ser garantido à família e à memória do ex-presidente. O reconhecimento oficial de sua morte como um assassinato é um gesto simbólico que pode ajudar a curar feridas abertas na sociedade brasileira.

É fundamental que a sociedade esteja atenta a esses relatos e que as novas gerações compreendam a importância de preservar a memória histórica. Somente assim será possível evitar que erros do passado se repitam no futuro. A busca pela verdade é um direito inegociável de toda a população brasileira e deve ser uma prioridade nas políticas públicas.

Por fim, a luta por justiça em casos como o de JK é emblemática e representa a resistência de muitos que sofreram sob o regime militar. A memória desses indivíduos deve ser mantida viva, e suas histórias contadas para que o passado não seja esquecido.

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Marcos Antonio Oliveira

Sobre Marcos Antonio Oliveira

Jornalista com pós-graduação em Política Internacional. Atua cobrindo o congresso nacional há mais de uma década. Grande paixão por história brasileira e debates democráticos. Nas horas vagas, dedica-se ao estudo de xadrez.