Suécia implementa novas prisões para menores a partir dos 13 anos
06 JUN

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Cotidiano
Patrícia Soares Rocha Por Patrícia Soares Rocha - Há 2 meses
2842 6 minutos de leitura

A Suécia está enfrentando um aumento alarmante na violência relacionada a gangues, que se intensificou na última década, incluindo tiroteios e atentados com explosivos. A preocupação se tornou ainda mais urgente após a constatação de que uma parte significativa desses crimes foi cometida por menores de idade. Em resposta a essa situação, o governo sueco, que assumiu o poder em 2022, propôs uma mudança significativa na forma como lida com jovens infratores, especialmente à luz das próximas eleições, onde a segurança é um tema central.

Recentemente, as autoridades suecas decidiram que, a partir de agora, crianças a partir de 13 anos poderão ser enviadas para prisões, ao invés de serem encaminhadas para o sistema de assistência social, que, segundo eles, falhou em prevenir a delinquência juvenil. Essa nova legislação, que reduz a idade de responsabilidade criminal de 15 para 13 anos, coloca a Suécia em desacordo com a maioria dos países europeus, onde a idade é geralmente mais alta. O governo acredita que essa medida é necessária para abordar a gravidade dos crimes cometidos por adolescentes e também para fazer frente à crescente influência das gangues na sociedade.

As novas prisões, que estão sendo projetadas para acolher os menores infratores, incluirão unidades específicas para meninas e serão centradas na educação. Por exemplo, a prisão de Rosersberg, localizada ao norte de Estocolmo, é uma das três unidades que estão sendo reformadas para abrigar jovens considerados mais perigosos. A rotina dos internos será organizada de forma a oferecer oportunidades de aprendizado e entretenimento, permitindo que assistam a televisão, joguem videogame e pratiquem atividades físicas. No entanto, as celas serão trancadas a partir das 20h, e o diretor da instituição, Gabriel Wessman, destaca que o maior desafio será proporcionar um ambiente de apoio para esses adolescentes, muitos dos quais nunca estiveram longe de suas famílias.

Atualmente, a Suécia enfrenta um cenário de crescente criminalidade, com gangues envolvidas em atividades como tráfico de drogas e fraudes, que geram um lucro estimado em 185 bilhões de coroas suecas, equivalente a cerca de US$ 20 bilhões. A polícia estima que existam cerca de 17.500 membros ativos de gangues e 50.000 associados, e a utilização de redes sociais para recrutar jovens, incluindo crianças de apenas 11 anos, para cometer crimes é uma preocupação crescente. O ministro da Justiça, Gunnar Strömmer, classificou a situação como uma “emergência”, e o Parlamento sueco está previsto para votar a nova legislação em 15 de junho, com uma revisão programada para daqui a cinco anos.

A proposta de redução da idade de responsabilidade penal é acompanhada de outras medidas, como o aumento das penas de prisão e a ampliação dos poderes da polícia. O governo de direita alega que essa abordagem já está mostrando resultados, com a redução do número de homicídios relacionados a tiroteios. Em 2025, 44 pessoas foram mortas, uma diminuição em relação ao pico de 62 em 2022, e mais membros de gangues estão sendo encarcerados. Contudo, especialistas apontam que a tarefa de impedir que as gangues recrutem crianças será extremamente desafiadora.

Além disso, a implementação de programas de reabilitação intensivos é considerada vital para evitar a reincidência entre os jovens infratores. Historicamente, aqueles que eram tratados pelos serviços sociais não apresentaram bons resultados: um relatório do Gabinete Nacional de Auditoria da Suécia revelou que 90% dos jovens que passaram por abrigos juvenis voltaram a cometer crimes, e 80% acabaram na prisão quando se tornaram adultos. Isso levanta preocupações significativas sobre as consequências das novas medidas para os jovens e suas famílias.

Criticos da nova legislação, incluindo o líder do Partido da Esquerda, Samuel Gonzalez Westling, expressaram forte oposição à redução da idade de responsabilização penal, argumentando que isso pode ter um impacto negativo sobre as crianças. Além disso, as autoridades encarregadas da aplicação da lei e do sistema prisional também manifestaram suas preocupações em relação às implicações dessa mudança.

Desta forma, a proposta de encarcerar menores de idade, especialmente aqueles a partir de 13 anos, traz à tona um debate complexo sobre a responsabilidade criminal no contexto da crescente violência nas ruas da Suécia. Se, por um lado, é compreensível que o governo busque medidas mais rigorosas para combater a criminalidade, por outro lado, é crucial considerar o impacto que essa abordagem pode ter sobre a vida dessas crianças.

Em resumo, a criminalização de jovens em vez de tratá-los como vítimas de um sistema falido pode levar a um ciclo de violência e exclusão que perpetuará o problema em vez de solucioná-lo. A educação e a reabilitação devem ser prioridades, e o sistema prisional deve ser projetado não apenas para punir, mas para reintegrar esses jovens à sociedade.

Assim, é essencial que as soluções propostas incluam não apenas o encarceramento, mas também programas de apoio psicológico e educativo que abordem as causas profundas da delinquência juvenil. Além disso, a participação da comunidade e da família é fundamental para que esses jovens tenham uma chance real de mudança.

Finalmente, a questão da violência juvenil na Suécia é um reflexo de problemas sociais mais amplos, que requerem uma abordagem multifacetada e colaborativa. A implementação de políticas públicas que envolvam a sociedade civil e os jovens pode ser um caminho viável para reduzir a criminalidade de forma eficaz e sustentável.

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Patrícia Soares Rocha

Sobre Patrícia Soares Rocha

Antropóloga com foco em cultura popular e tradições brasileiras. Atua pesquisando costumes rurais e folclore regional. Paixão por literatura nacional contemporânea. Dedica-se ao bordado livre artesanal nas horas vagas.