Energia solar 24 horas: O Brasil precisa acompanhar a revolução energética
09 JUN

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Economia
Bianca Teles Fonseca Por Bianca Teles Fonseca - Há 16 dias
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No dia 15 de maio, o Financial Times publicou uma reportagem que deve ser central em qualquer discussão séria sobre a energia no Brasil. O foco da matéria é a nova era da energia solar, que promete funcionar 24 horas por dia. De acordo com o diretor-geral da Irena, Francesco La Camera, a questão da intermitência das energias renováveis, utilizada por muito tempo como justificativa para a manutenção dos combustíveis fósseis, foi superada. Isso se deve à significativa redução nos preços das baterias de armazenamento de energia (BESS).

Desde o ano de 2022, os custos de instalação de sistemas de energia solar com armazenamento caíram mais de 50%, com uma diminuição de 27% apenas no último ano, conforme informado pela BloombergNEF. Apesar desse avanço, o Brasil ainda enfrenta resistência a essa tecnologia. O debate sobre o armazenamento de energia é marcado por artigos, vídeos e manifestações que classificam as baterias como arriscadas ou inadequadas para o sistema elétrico brasileiro.

O que se observa, no entanto, é que a cautela muitas vezes se disfarça de prudência técnica, encobrindo uma resistência à mudança que beneficia setores que lucram com a continuidade do uso de combustíveis fósseis. As baterias, por sua vez, não são uma tecnologia nova ou experimental. Um exemplo notável é o maior projeto solar com armazenamento do mundo, que está em construção em Abu Dhabi. Este projeto conta com 5 GW de capacidade solar e baterias que garantem 1 GW de potência firme durante 24 horas, a um custo estimado de US$ 70/MWh, que é competitivo em relação a novas usinas a gás.

Além disso, na Austrália, a empresa Fortescue está desenvolvendo um sistema totalmente livre de combustíveis fósseis para a mineração de ferro, com conclusão prevista para 2028. A Irena afirma que, em países como China, Índia e o Brasil, as energias renováveis com armazenamento já são capazes de fornecer energia por mais de 95% do tempo e a custos competitivos.

O sistema elétrico brasileiro possui características que tornam o uso de BESS não apenas vantajoso, mas essencial. O crescimento da geração de energia solar e eólica criou um problema significativo conhecido como "curtailment", que se refere à necessidade de cortar a geração de energia renovável devido à falta de capacidade para absorver essa energia. As baterias podem solucionar esse problema ao armazenar o excesso gerado durante o dia e disponibilizá-lo para a rede entre 18h e 21h, quando a demanda é mais alta e a geração solar é nula.

Além do mais, cada megawatt (MW) de bateria pode evitar a construção de mais MWs de geração e transmissão que ficam ociosos por até 20 horas diárias, contribuindo para a redução das emissões de CO₂ e diminuindo a dependência de combustíveis importados, que podem ser afetados por crises geopolíticas.

Apesar dos benefícios claros das baterias, o Brasil avança lentamente nesse campo. As incertezas em relação ao ambiente regulatório e tributário são algumas das barreiras enfrentadas. As questões sobre como as baterias serão tarifadas pelo uso da rede elétrica impactam diretamente na viabilidade dos projetos, uma análise que ainda está em andamento na Aneel. Além disso, a carga tributária sobre equipamentos de armazenamento pode chegar a até 70% do valor do ativo, o que é desproporcional, considerando que essas tecnologias contribuem para a redução de emissões e para a eficiência do sistema.

Outro ponto que merece atenção é que as usinas híbridas que utilizam BESS já estão viabilizando a geração de energia em áreas remotas do Brasil, como comunidades rurais e operações agroindustriais fora da rede elétrica, a um custo muito inferior ao de geradores a diesel. Essa realidade se dá mesmo com a atual carga tributária elevada, o que levanta a questão do que seria possível alcançar se houvesse uma equiparação tributária com outras fontes renováveis.

Embora as baterias não sejam uma solução milagrosa, utilizar as limitações de qualquer tecnologia como justificativa para manter o status quo é um erro que não resiste a uma análise mais profunda. As termelétricas, por exemplo, também têm suas desvantagens: são caras, poluentes, dependem de combustíveis importados e têm baixa capacidade de operação no sistema brasileiro.

O argumento de que o Brasil deve avançar lentamente devido à variabilidade hídrica e à crescente intermitência das energias renováveis é, na verdade, uma justificativa para a necessidade de soluções mais flexíveis, como o armazenamento de energia por baterias. A competição, conforme mencionado por La Camera ao FT, não é mais entre fósseis e renováveis, mas sim entre aqueles que conseguem avançar mais rapidamente.

O Brasil possui um potencial solar e eólico considerável e uma matriz elétrica que favorece a integração dessas energias. O que falta são clareza nas regras, justiça tributária e a coragem para priorizar o interesse do sistema elétrico em detrimento de setores que buscam atrasar a transição energética. O leilão de reserva de capacidade de baterias representa uma oportunidade histórica que não pode ser desperdiçada. Ignorar essa chance seria um erro que as futuras gerações não perdoariam. O mundo já reconheceu a importância das baterias. Agora é a vez do Brasil se adaptar a essa realidade.


Sergio Jacobsen é CEO da Micropower e fundador e conselheiro da Asabe, além de vice-presidente de armazenamento da Absolar. Os textos publicados pelo CNN Infra visam estimular o debate e a reflexão sobre os principais desafios enfrentados pelo Brasil e por outros países.

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Bianca Teles Fonseca

Sobre Bianca Teles Fonseca

Mestre em Economia Aplicada ao Desenvolvimento. Atua analisando o impacto do agronegócio no PIB e as exportações brasileiras. Paixão por análise de dados e projeções. Estuda piano clássico desde a infância como hobby.