Cosmeticorexia: o impacto da obsessão por cuidados com a pele entre meninas
08 JUN

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Saúde
Marina Souza Peroni Por Marina Souza Peroni - Há 20 dias
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O termo cosmeticorexia tem ganhado destaque entre dermatologistas e pesquisadores, referindo-se a uma obsessão considerada prejudicial por alcançar uma pele "perfeita" desde a juventude, associada ao uso excessivo de cosméticos. Essa condição tem se tornado comum entre meninas, especialmente em um mundo cada vez mais influenciado pelas redes sociais.

Um exemplo marcante é Ellie-May, uma jovem de apenas 13 anos que começou sua jornada no mundo do skincare aos 8 anos. Em vídeos postados no TikTok, ela compartilha sua rotina de cuidados com a pele, que inclui várias etapas, desde a aplicação de tônicos até maquiagem elaborada. Essa prática, que inicialmente era uma atividade recreativa durante a pandemia, se transformou na principal fonte de renda de sua família, que chega a ganhar cerca de £50 mil (aproximadamente R$ 340 mil) por ano com as postagens.

A popularidade de Ellie-May nas redes sociais, com mais de 330 mil seguidores apenas no TikTok, reflete uma tendência crescente entre jovens que buscam não só cuidados com a pele, mas também a fama que vem com isso. A mãe de Ellie-May, Sophie, está atenta aos produtos que a filha usa, verificando sempre os ingredientes, enquanto a família se adapta a essa nova realidade de influenciadores digitais.

Ao pesquisar o termo "crianças e skincare" em várias plataformas, é fácil encontrar uma infinidade de vídeos de meninas de idades tão precoces quanto 3 ou 4 anos, mostrando suas rotinas de cuidados e maquiagem. Essas gravações, muitas vezes, são acompanhadas de comentários sobre como melhorar a aparência da pele, algo que já se tornou uma norma dentro da cultura juvenil atual.

O mercado de produtos de cuidado com a pele para meninas não é uma novidade, mas a variedade de itens disponíveis atualmente é muito maior do que no passado. Enquanto os esfoliantes e sabonetes de décadas atrás prometiam uma pele livre de acne, hoje as meninas estão expostas a produtos sofisticados, muitos com ingredientes voltados para o antienvelhecimento, na busca pela pele perfeita.

Influenciadoras de skincare, como Ellie-May, se autodenominam "embaixadoras de marcas" e promovem produtos de empresas conhecidas, como Bubble e Drunk Elephant. Embora algumas marcas afirmem não querer ser associadas a esse público jovem, a pressão por padrões de beleza se intensifica, levando a um questionamento sobre a responsabilidade das empresas em relação a esse público.

Dados levantados pela marca Pai, que realiza produtos para a pele, mostram que quase metade das crianças entre 9 e 12 anos utiliza uma variedade de produtos de skincare semanalmente. Dessas, muitas afirmam que o fazem para corrigir o que percebem como falhas em sua própria pele, evidenciando a pressão que as jovens sentem em relação à aparência.

Com o setor de skincare se transformando em uma indústria multibilionária, especialistas e reguladores estão expressando preocupações. A pressão que mulheres mais velhas enfrentaram por décadas agora está sendo imposta a meninas jovens, criando um ciclo preocupante de obsessão pela beleza e pela aparência.

O professor Giovanni Damiani, dermatologista da Universidade de Milão, conduziu uma pesquisa com 55 pacientes entre 8 e 14 anos, revelando que muitos desses jovens estão obcecados por suas rotinas de skincare e passam horas assistindo a vídeos nas redes sociais. Essa obsessão está levando a um uso excessivo de produtos, muitas vezes chegando a 10 por dia, e à dificuldade de socialização sem maquiagem.

Essa transformação no mercado e nas práticas de beleza levanta questões importantes sobre o que significa realmente ter uma pele "perfeita" e como as jovens estão sendo influenciadas por essas expectativas. O que deveria ser uma prática saudável de autocuidado pode estar se tornando um problema sério de saúde mental.

Desta forma, é fundamental que pais e responsáveis estejam atentos ao que suas filhas consomem nas redes sociais. A obsessão por produtos de beleza pode levar a um desvio de foco, onde o autocuidado se torna uma obrigação e não uma escolha saudável.

Além disso, as empresas que vendem cosméticos para esse público jovem devem trabalhar em prol de uma comunicação responsável. É necessário que as marcas adotem práticas que incentivem a aceitação e o amor próprio, ao invés de perpetuar padrões de beleza inatingíveis.

Assim, é crucial promover uma discussão aberta sobre a autoestima e os reais efeitos do uso excessivo de produtos de cuidados com a pele. Fomentar diálogos que levem as jovens a refletirem sobre a beleza natural e a saúde da pele é uma medida que pode ajudar a combater a cosmeticorexia.

Finalmente, a educação sobre o uso consciente de cosméticos deve ser uma prioridade, tanto nas escolas quanto em casa. Criar um ambiente onde as meninas se sintam seguras e valorizadas sem a necessidade de uma maquiagem pesada é um passo importante para o bem-estar emocional delas.

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Marina Souza Peroni

Sobre Marina Souza Peroni

Médica endocrinologista e mestre em Bioética Médica. Atua em hospitais da rede privada focada em longevidade e saúde integrativa. Paixão por saúde preventiva. Participa ativamente de um coro coral amador local.