Geração Z no Reino Unido recorre à inteligência artificial para lidar com a solidão
07 FEV

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Professor Ricardo Bittencourt Junior Por Professor Ricardo Bittencourt Junior - Há 2 meses
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Um estudo recente revelou que muitos jovens da Geração Z no Reino Unido têm se voltado para a inteligência artificial (IA) como uma forma de enfrentar a solidão. Paisley, um jovem de 23 anos, compartilhou sua experiência dizendo que, após passar um longo período trabalhando em casa durante os lockdowns da Covid-19, se sentiu cada vez mais isolado e incapaz de se socializar. Ele contou que chegou a conversar com o ChatGPT até oito vezes por dia, buscando um tipo de companhia que não conseguia encontrar nas interações humanas.

Essa situação de solidão não é um caso isolado. De acordo com dados do Escritório de Estatísticas Nacionais do Reino Unido, 33% dos jovens entre 16 e 29 anos se sentem solitários com frequência. O fenômeno foi identificado como parte de uma crise de solidão que afeta a Geração Z, que abrange os nascidos entre 1997 e 2012, considerada a primeira geração verdadeiramente digital. A pesquisa realizada pela Onside, uma organização que apoia jovens, revelou que 39% dos jovens entre 11 e 18 anos na Inglaterra utilizam chatbots em busca de apoio emocional.

Na região Noroeste da Inglaterra, o número de jovens que se sentem mais à vontade conversando com uma IA do que com uma pessoa real é de 21%. Isso levanta questões sobre a natureza das interações sociais na era digital, onde a tecnologia pode oferecer uma resposta imediata, mas não substitui a complexidade das relações humanas. Paisley, que vive em Manchester, relatou em um documentário intitulado "Geração Solitária" que, após deixar a escola, entrou diretamente no mercado de trabalho e, com isso, acabou se isolando ainda mais. Ele expressou sua frustração em não conseguir estabelecer diálogos significativos com outras pessoas e, em sua busca por conexão, recorreu a uma IA.

O diretor do documentário, Sam Tullen, também de 22 anos, afirmou que a pandemia da Covid-19 exacerbava as dificuldades sociais da Geração Z, tornando as interações humanas ainda mais desafiadoras. Tullen relatou que, em sua pesquisa, muitos jovens mencionaram usar chatbots para discutir questões pessoais, como opiniões sobre suas roupas ou decisões do dia. No entanto, a conclusão é clara: confiar em chatbots como substitutos de amigos não é uma solução viável a longo prazo.

Adam Farricker, que dirige a organização de jovens Empower Youth Zones, destacou a importância do papel de adultos de confiança na vida dos jovens. Para ele, grupos de jovens oferecem um espaço seguro para que os adolescentes possam se conectar com pessoas que realmente podem ajudá-los a enfrentar seus desafios emocionais. Ele também alertou que, embora muitos jovens reconheçam os riscos de conversar com chatbots, muitos deles ainda acreditam que as informações recebidas são sempre corretas, o que pode ser problemático.

Dr. Jennifer Cearns, especialista em relações entre humanos e IA, ressaltou que a falta de interação humana pode prejudicar o desenvolvimento emocional dos adolescentes. Ela destacou que os chatbots, por serem programados para serem agradáveis e compreensivos, não oferecem o empurrão necessário para o crescimento pessoal, algo que as interações humanas proporcionam. A preocupação com uma geração de adolescentes que se acostumam a conversar apenas com máquinas é legítima, pois isso poderia levar a uma falta de habilidade em lidar com críticas ou discordâncias.

A situação apresentada revela um panorama preocupante sobre a solidão entre os jovens da Geração Z. A dependência de chatbots para suprir a falta de interações humanas pode parecer uma solução prática, mas não é sustentável a longo prazo. É fundamental que iniciativas sejam desenvolvidas para aumentar a conscientização sobre a importância das relações interpessoais e o papel dos adultos de confiança na vida dos jovens.

O uso crescente de IA para enfrentar a solidão pode ser um sintoma de uma crise social mais profunda, que exige atenção. A tecnologia pode oferecer apoio, mas não deve substituir o calor e a complexidade das conexões humanas. Os jovens precisam aprender a navegar entre o digital e o real, desenvolvendo habilidades sociais que são essenciais para o bem-estar emocional.

É responsabilidade da sociedade, incluindo educadores, familiares e profissionais de saúde mental, criar ambientes que incentivem a interação social e o apoio emocional. A promoção de espaços seguros e acessíveis para que os jovens possam se conectar é essencial para enfrentar essa questão. A tecnologia deve ser vista como uma ferramenta, e não como um substituto das relações humanas.

O desafio agora é encontrar um equilíbrio entre o uso da tecnologia e o cultivo de relações saudáveis e significativas. A construção de uma rede de apoio sólida pode fazer toda a diferença na vida desses jovens, ajudando-os a desenvolver resiliência e habilidades emocionais necessárias para enfrentar as adversidades da vida.

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Professor Ricardo Bittencourt Junior

Sobre Professor Ricardo Bittencourt Junior

Pesquisador em Inteligência Artificial, apaixonado por algoritmos e maratonas digitais. Graduado pela USP, atua no Vale do Silício pesquisando redes neurais e o impacto da tecnologia na sociedade. Paixão por astronomia amadora e observação de estrelas.