Autocoleta de amostras pode ajudar na prevenção do câncer de colo do útero
05 MAR

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Saúde
Camila Lacerda Bueno Por Camila Lacerda Bueno - Há 1 mês
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A coleta de amostras de urina e material vaginal em casa pode ser uma estratégia eficaz na prevenção do câncer de colo do útero, de acordo com um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). Publicado no periódico Clinics, o estudo indica que esses métodos de autocoleta são viáveis, confiáveis e têm desempenho similar ao da coleta cervical realizada por profissionais de saúde.

Apesar de ser uma doença altamente prevenível, o câncer de colo do útero ainda resulta em milhares de mortes no Brasil. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) aponta que, a cada minuto, uma pessoa é diagnosticada no mundo com um câncer relacionado ao papilomavírus humano (HPV). No Brasil, cerca de 19 mulheres perdem a vida diariamente em decorrência dessa doença, que é a principal causa de morte por câncer entre mulheres de até 36 anos no país.

Para explorar alternativas que ampliem o acesso ao rastreamento do câncer, a pesquisadora Lara Termini, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), e o ginecologista Gustavo Maciel, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), recrutaram 100 mulheres com mais de 21 anos. A maioria dessas participantes tinha entre 30 e 39 anos e foi encaminhada por Unidades Básicas de Saúde (UBS) para realizar colposcopia devido à presença de lesões de alto risco ou já diagnosticadas como câncer.

No total, foram realizadas três coletas sequenciais: uma de urina, uma de material vaginal, feitas pelas próprias participantes, e uma coleta cervical, conduzida por um médico. Antes dos procedimentos, todas assistiram a um vídeo educativo com orientações detalhadas e responderam a um questionário para assegurar a compreensão das etapas e aumentar a adesão ao estudo. As amostras obtidas foram analisadas para detectar o HPV de alto risco oncogênico.

Os resultados mostraram que tanto a autocoleta de urina quanto a de material vaginal apresentaram alta concordância com a coleta tradicional realizada pelos médicos, incluindo a identificação do HPV16, um dos tipos mais associados ao câncer de colo do útero. "Nossos achados indicam que a autocoleta representa uma estratégia mais inclusiva e acessível, pois permite que qualquer pessoa com útero realize a coleta de forma autônoma, fora do ambiente clínico", afirma Lara Termini.

Fatores como medo, dificuldade de acesso aos serviços de saúde, falta de tempo e aspectos culturais e religiosos costumam impedir muitas pessoas de realizarem os exames. Entre as participantes, a coleta de urina foi a metodologia melhor aceita, associada a maior conforto e menor constrangimento. Mesmo assim, ambos os métodos de autocoleta mostraram alta aceitabilidade em comparação ao exame ginecológico convencional, evidenciando o potencial dessas estratégias para alcançar pessoas que atualmente não realizam o rastreamento regularmente.

A autocoleta vaginal, em particular, já vem sendo utilizada de forma estruturada em vários países com programas organizados de rastreamento, como Holanda, Austrália, Suécia e Dinamarca, onde a estratégia foi incorporada aos sistemas nacionais de saúde, demonstrando impacto positivo na ampliação da cobertura populacional.

Embora ainda não haja previsão de quando a autocoleta estará disponível no Brasil, o ginecologista Renato Moretti, do Einstein Hospital Israelita, ressalta a importância dessa iniciativa. "Há um movimento da Organização Mundial da Saúde [OMS] e de outras instituições que visa a erradicação do câncer de colo do útero até 2030, a partir de alta cobertura vacinal, capacidade de diagnóstico e tratamento", afirma Moretti.

Em agosto de 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) começou a incorporar o teste molecular para a detecção do HPV como estratégia de rastreamento do câncer de colo do útero. O Ministério da Saúde considera essa tecnologia inovadora, pois possibilita a identificação de alterações precursoras até dez anos antes do exame de Papanicolau. Essa nova metodologia está sendo implantada gradualmente e, no futuro, deverá substituir o exame citopatológico tradicional.

A ideia é que a autocoleta vaginal também sirva como uma ferramenta para ampliar o acesso e a cobertura dos exames no país, beneficiando mulheres com menor acesso aos serviços de saúde. No entanto, isso deve ser acompanhado de fluxos bem definidos para o cuidado das pacientes com resultados alterados.

O estudo abre espaço para novas investigações em ambientes adequados e pode beneficiar mulheres com menos acesso aos métodos de rastreamento do câncer do colo uterino. A OMS estima que, sem ações preventivas, o câncer de colo do útero pode resultar em cerca de 411 mil mortes no mundo até 2030.

O câncer costuma evoluir de forma silenciosa em seus estágios iniciais, o que faz com que muitas mulheres não procurem atendimento médico precocemente. Por isso, a prevenção é fundamental e envolve diversas estratégias, com destaque para a vacinação contra o HPV, que é oferecida gratuitamente pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 19 anos. Além disso, o uso de preservativos nas relações sexuais, a adoção de hábitos de vida saudáveis e a realização regular de exames ginecológicos são importantes para reduzir o risco da doença.

Mesmo mulheres já vacinadas devem manter acompanhamento periódico com ginecologistas, pois o rastreamento é essencial para identificar alterações precocemente e garantir um tratamento adequado.

Desta forma, a implementação da autocoleta de amostras para detecção do HPV pode ser uma mudança significativa na estratégia de prevenção do câncer de colo do útero no Brasil. Essa abordagem pode facilitar o acesso a exames e aumentar a adesão das mulheres ao rastreamento, especialmente entre aquelas que enfrentam barreiras para acessar serviços de saúde.

Além disso, o estudo demonstra que a autocoleta é uma alternativa viável e confiável, o que pode ajudar a desmistificar a importância do rastreamento. A aceitação dos métodos de autocoleta entre as participantes indica que, com a devida educação e suporte, é possível melhorar a saúde pública e reduzir a mortalidade associada ao câncer de colo do útero.

Por fim, a combinação de vacinação, rastreamento eficaz e acesso facilitado aos exames pode contribuir para a erradicação do câncer de colo do útero até 2030, conforme preconizado pela OMS. Essa meta é ambiciosa, mas pode ser alcançada com esforço conjunto de instituições de saúde e da sociedade civil.

É essencial que a população esteja ciente da importância da prevenção e do rastreamento, além de se engajar em hábitos saudáveis. A educação e a conscientização são fundamentais para garantir que mais mulheres tenham acesso a cuidados de saúde de qualidade e, assim, possam cuidar de sua saúde de forma adequada.

Assim, a autocoleta de amostras representa não apenas um avanço na tecnologia de saúde, mas também uma oportunidade para transformar a forma como a prevenção do câncer é abordada no Brasil.

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Camila Lacerda Bueno

Sobre Camila Lacerda Bueno

Fisioterapeuta com pós-graduação em Medicina Tradicional Chinesa. Atua com atletas de alto rendimento e reabilitação física. Paixão por anatomia humana e biomecânica. Praticante assídua de crossfit e levantamento de peso.