Estudo revela que obesidade infantil provoca danos vasculares desde a infância
11 FEV

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Saúde
Marina Souza Peroni Por Marina Souza Peroni - Há 2 meses
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Uma pesquisa realizada por cientistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com um grupo de 130 crianças, com idades entre 6 e 11 anos, revelou que a obesidade pode causar efeitos prejudiciais à saúde cardiovascular desde a infância. O estudo, que recebeu apoio da Fapesp, constatou que a condição está associada a um aumento no risco de doenças como aterosclerose, infarto e acidente vascular cerebral (AVC) ainda na infância.

Os pesquisadores identificaram sinais precoces de inflamação e disfunção no endotélio, a camada que reveste os vasos sanguíneos, em crianças com sobrepeso e obesidade. A professora Maria do Carmo Pinho Franco, uma das autoras do estudo publicado no International Journal of Obesity, enfatizou a gravidade da obesidade infantil e a necessidade de ações para combatê-la desde cedo.

Franco destacou a importância de políticas públicas voltadas para a redução da obesidade em crianças, especialmente nas populações em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Ela explicou que a obesidade gera uma inflamação crônica de baixo grau, que mantém o sistema imunológico em constante alerta e pode levar ao envelhecimento precoce das células imunes.

A inflamação identificada no endotélio, foco do estudo, provoca danos celulares, mesmo em crianças, o que intensifica a gravidade da obesidade infantil. "É sabido que crianças com sobrepeso ou obesidade tendem a se tornar adolescentes e adultos com os mesmos problemas, aumentando o risco de doenças cardiovasculares e metabólicas no futuro. No entanto, o estudo mostrou que esses problemas já podem começar na infância, antes mesmo do surgimento de outros fatores de risco", comentou Franco.

Ela destacou que as crianças analisadas não fumam, não consomem bebidas alcoólicas e estão em uma faixa etária pré-púbere, sem a influência de hormônios sexuais. O único fator em comum entre elas é o excesso de peso, o que indica que a obesidade por si só é capaz de iniciar um processo inflamatório crônico com impacto na saúde vascular.

No decorrer da pesquisa, os cientistas encontraram um aumento na expressão gênica da citocina inflamatória TNF-alfa em amostras de sangue das crianças com sobrepeso ou obesidade. Além disso, foram observados níveis elevados de micropartículas endoteliais (EMPs) apoptóticas, que são marcadores inflamatórios que podem indicar dano às células endoteliais, contribuindo para a disfunção do tecido.

Uma vez que o endotélio é considerado fundamental para a saúde vascular, lesões precoces detectadas nos vasos sanguíneos das crianças podem resultar em doenças como aterosclerose, infarto e AVC. O estudo também avaliou indicadores como índice de massa corporal (IMC), circunferência da cintura, pressão arterial e função endotelial da microvasculatura.

As crianças com sobrepeso e obesidade apresentaram resultados insatisfatórios no Índice de Hiperemia Reativa (RHI), que avalia a saúde dos microvasos. A piora da função endotelial foi correlacionada com a maior expressão do gene TNF-alfa e níveis elevados de EMPs.

Outro ponto relevante é que a pesquisa foi realizada com crianças atendidas em um Centro da Juventude na cidade de São Paulo. A avaliação do IMC, circunferência da cintura, pressão arterial e tonometria arterial periférica ocorreu no local, com o auxílio de nutricionistas, médicos e enfermeiros voluntários.

As análises laboratoriais, que incluíram a extração de RNA e a quantificação de marcadores inflamatórios por PCR (qRT-PCR), foram conduzidas no Departamento de Biofísica da Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp). Os pesquisadores também realizaram um trabalho de conscientização com merendeiras e responsáveis, ensinando receitas que substituíssem alimentos ultraprocessados por opções mais saudáveis.

Os pesquisadores ressaltam a urgência de fortalecer e expandir políticas públicas para prevenir a obesidade infantil, especialmente em comunidades vulneráveis. Franco alertou que, sem intervenção precoce, essas crianças podem se tornar adultos com doenças cardiovasculares e metabólicas, o que representa uma preocupação significativa para a saúde pública e para a sustentabilidade do sistema de saúde brasileiro.

Desta forma, a pesquisa da Unifesp destaca um problema de saúde pública que precisa de atenção imediata. O aumento da obesidade infantil é um fenômeno alarmante que exige ação coordenada entre governos, escolas e famílias. A necessidade de intervenções precoces é clara, pois a saúde cardiovascular das crianças está em risco.

Além disso, é fundamental que as políticas públicas sejam desenvolvidas de forma inclusiva, visando atender as comunidades em situação de vulnerabilidade. A educação alimentar e a promoção de hábitos saudáveis devem ser prioridades nas ações de prevenção da obesidade infantil.

O estudo também evidencia que a responsabilidade pela saúde das crianças não deve recair apenas sobre os indivíduos e suas famílias, mas sim sobre o sistema de saúde e a sociedade como um todo. Medidas coletivas são essenciais para inverter esse quadro preocupante.

Finalmente, é necessário que as instituições de saúde e educação trabalhem juntas para criar um ambiente favorável à saúde das crianças. Programas de conscientização e ações que promovam a alimentação saudável e a prática de atividades físicas são fundamentais para a construção de um futuro mais saudável.

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Marina Souza Peroni

Sobre Marina Souza Peroni

Médica endocrinologista e mestre em Bioética Médica. Atua em hospitais da rede privada focada em longevidade e saúde integrativa. Paixão por saúde preventiva. Participa ativamente de um coro coral amador local.